Por outro lado

Tudo tem, pelo menos, dois lados

Presente de aniversário Agosto 3, 2008

Arquivado em: O lado da Fernanda — migratoria @ 1:39 am

Presente de aniversário

Se meu coração fosse um lugar

ele seria um parque

onde há verde e outras cores

onde há água e flores

onde há patos e amores

onde o sol brilha durante o verão

e a solidão predomina no inverno

onde a vida renasce na primavera

e a exploração se retrai no outono

Se meu coração fosse um lugar

Ele seria um parque

onde eu posso me sentar

depois de uma longa caminhada

onde eu posso me deitar

se eu quiser dar uma cochilada

onde eu posso me deixar

se eu quiser ser esquecida

Se meu coração fosse um lugar

ele seria um parque

onde há crianças brincando sem censura

onde há adultos namorando com ternura

onde há idosos contentes com a idade madura

onde há espaço

para pobres e ricos

para iguais e diferentes

para revolucionários e reacionários

para discursos ou silêncios

Se meu coração fosse um lugar

ele seria um parque

onde as saídas são várias

onde os caminhos são vários

onde as perguntas são muitas

onde os desvios são muitos

onde a resposta é única

Se meu coração fosse um lugar

Ele seria um parque

Ele seria o parque

que você queria

que fosse perto de sua casa

quer onde sua casa seja.

********************

My poor attempt towards translation:

Birthday present

If my heart were a place

It would be a park

where there are green and other colours

where there are water and flowers

where there are ducks and lovers

where the sun shines in the summer

and loneliness takes over in the winter

where life becomes anew in the spring

and discovery ceases during the fall

If my heart were a place

It would be a park

where I can sit

after a long walk

where I can lie down

if I want to have a nap

where I can let myself go

if I want to be forgotten

If my heart were a place

It would be a park

where children can play freely

where adults can love tenderly

where the elder can enjoy their maturity

where there is room

for the poor and the rich

for equals and strangers

for revolutionaries and reactionaries

for speeches and silence

If my heart were a place

It would be a park

where there are many exits

where there are many paths

where there are many questions

where there are many diversions

where the answer is unique

If my heart were a place

It would be a park

It would be the park

you wanted

to be near your house

wherever your house may be.

 

Pontos de distração Junho 2, 2008

Arquivado em: O lado da Vanessa — poroutrolado @ 7:57 am

Eu tinha que esperar uma pessoa e, por incrível que pareça, neste dia eu estava adiantada. Tudo bem que eu estava acompanhada da minha madrinha, o que pode ter contribuído para eu chegar antes da hora. Detalhe… O que importa mesmo é que eu não tinha nada para fazer a não ser sentar no banco da Carioca e esperar. Para quem não conhece o Rio de Janeiro, eu estou falando de uma das ruas mais movimentadas do centro da cidade.  E bota movimentada nisso! Ok, o centro costuma ser assim, mas eu acredito que a Carioca se supera. Ou melhor, as pessoas se superam…

Foi à conclusão que eu cheguei logo assim que uma mulher, com um cartaz sobre gravatas em seu corpo se aproximou dela e disparou: “Toma esse papel pra você aprender a dar nó de gravata! É, eu sei… Eu não devia abordar as pessoas, mas você estava olhando tanto pra lá que eu resolvi vir aqui. Eu senti que você quer aprender sobre gravatas! Olha, aqui tem todas as instruções! Depois você passa lá na loja pra comprar uma e treinar!”. E na empolgação até eu ganhei o papel com os nós passo a passo. Hã! Gravata??

Em seguida, dei de cara com uma criança em cima da minha perna. Ela era tão pequenininha que poderia passar debaixo das minhas pernas despercebida. “Pois bem”, pensei comigo, “ela vai pedir dinheiro para a mãe que está em algum lugar perto daqui”. E já estava me revoltando com essa situação quando ela tirou a mão de trás das costas: “Toma!”. “Hein? O que é isso?”. “Um papel pra você”. Na folha: “Cristina Paz – jogo búzios, tarô e runas. Resolvo os seus problemas”. Ah, sim, Cristina Paz devia ser a mãe dela. “Ah, você quer me dar o papel”. Ela então sorri e sai de perto. Quando observo, vejo que ela sai pegando mais papéis daquele pelo chão. Ah tá, agora sim, foi apenas um lixo de presente… E o dia prossegue.

Policias passam, morrendo de rir. Estão tranqüilos e parecem passear, não trabalhar. Cada um deles com pedaços de plástico bem finos e azuis dentro dos bolsos das calças. Algemas de plástico? Na verdade, parecia mais aquelas pulseirinhas VIPs de festas, sabe?

Uma mulher com uma bolsa enorme em formato de peixe colorido sobe a rua. Está com pressa e o peixe coitado, balança como se estivesse em um mar revolto.

Um cara abre sua barraquinha do Santo Expedito. Na frente, um cartaz gigantesco com a foto dele com cara de sério e a imagem do santo. Do lado de fora, a própria imagem. Maior do que eu. Ali, vende orações, livrinhos e a mensagem do Santo. Seria pagamento de promessa? Eu hein, foi-se o tempo em que as pessoas apenas subiam as escadas de uma igreja…

Um rapaz passa e entrega um papel: “Cristina Paz – jogo búzios, tarô e runas. Resolvo os seus problemas”. Ai, ai, ai, tem gente querendo resolver MESMO os meus problemas. Até que seria interessante, né? Você paga uma pessoa e a vida fica bela! Será que ela tem os números da Sena? Comecei a pensar melhor sobre o assunto…

Um homem com o cartaz no corpo “Vendo Ouro” desce a rua conversando com o amigo que anda com o cartaz “Desbloqueio celulares”. Estavam falando sobre uma garota bonita que conheceram no bar, na noite passada.

Os policiais voltam. No maior papo-furado e cheio de sacolas! Comida, bebida… Eu ainda acho que eles estão indo para alguma festa… Vai ver, nem são policiais e estão indo para uma festa à fantasia. Ei! Mas ainda nem era meio-dia!

Um “Sombra” passa atrás de duas meninas, que nem deram conta de que estavam sendo seguidas.  E melhor: imitadas! Sombra, aquele tipo de artista que pinta a cara de branco e sai repetindo os gestos das pessoas, conhece?

Uma mulher passa e me entrega um papel: “Cristina Paz – jogo búzios, tarô e runas. Resolvo os seus problemas”. Caraca! Será que era a própria? Vou te dizer, a dona tá comandando a região…

Um homem vendendo bichos de pelúcias muito, mas muito grandes, passa. Um urso com o olho meio torto e um cachorro coma língua de fora. Pareciam estar cansados. Já o homem estava animadão andando pra cima e pra baixo, segurando os animais. Isso vende? Por um segundo eu resisto à tentação de fazer essa pergunta.

Índios tocam flautas. Até aí normal. O pulo do gato, ou quer dizer, do pajé, é que eles estavam vestidos com adereços de carnaval da Sapucaí! De esplendor e tudo!!Genial.

Era tanta gente ganhando dinheiro de uma maneira inesperada que eu resolvi escrever. Não que eu fosse escrever cartas em troca de moedas, como a Fernanda Montenegro em A Central do Brasil. Não, não… Era só um recurso para eu não esquecer daquelas pessoas. Então abaixei a cabeça e me concentrei na folha. Nisso, a minha madrinha começou: “Vamos dar um volta?”. “Já vou”. Estava muito entretida para parar. “Vaneeeessa…”. “Já vou!”. Passa dois minutos: “Vaneeeessa, vamos sair daqui, hein? Hein?”. Nisso, eu comecei a sentir um tom meio apreensivo dela, que agora falava muito baixo. Estranho… Resolvi então levantar a cabeça pra ver o que ela queria. Tchanam!!! Ao meu redor muita gente!! A maioria homens!! “Ow! De onde surgiu esse povo?”. E ao olhar em volta, vejo um homem com um quadro no meio da rua. Escrevia números, tinha uma viseira e usava um microfone. Falava algo como raiz quadrada, soma aqui, tira esse resultado… Sério… O cara estava dando aula de matemática!!! Com direto a responder pergunta e tudo! Incrível. Por alguns minutos até me interessei em descobrir o valor de X de uma questão. No entanto, o fato de estar no meio da roda me fez seguir os conselhos da minha madrinha e sair dali.

Foi quando encontro a pessoa que estávamos esperando. “Vanessa, aonde você estava! Já tinha rodado isso tudo atrás de vocês!”. É… Era uma longa história… Resolvi deixar pra contar depois. Melhor…

E os dias se passaram. Até que um dia, minha madrinha acha na bolsa o papel da Dona Cristina e faz a seguinte observação: “Viu onde era a rua onde ela ficava?”. “Não”. “Adivinha! Rua Visconde do Rio Branco”. “Putz! Tá de zoação?”, foi a única coisa que eu consegui responder. Afinal, é o nome da cidade de Minas Gerais onde eu nasci! Meu Deus! Cristina Paz, Visconde do Rio Branco, todos os papéis parando na minha mão… E foi aí que eu percebi tudo… Estava ali na minha cara o tempo todo… Era um sinal! Eu sabia… E se bobear, todas as pessoas da Carioca sabiam! Eu deveria ter ido na Cristina Paz… Ô distração… 

 

Corrente do tédio Maio 18, 2008

Arquivado em: O lado da Fernanda — migratoria @ 4:11 am

Um agricultor no interior do estado acorda todos os dias às quatro horas da manhã e trabalha horas a fio para fazer crescer umas verduras que ele vende a baixíssimo preço para um atravessador que levará o produto para a cidade.

Um atravessador desperta já preocupado se seu concorrente irá roubar o negócio feito com o agricultor de verduras pois disso depende o seu ganha-pão do mês para bancar a nova mulata da casa de forró e os cinco filhos que ele tem espalhados por aí. Também desesperado ele contrata o frete do caminhão com um motorista indicado por uma de suas ex-namoradas.

Um motorista de caminhão madruga para carregar as verduras compradas no interior do estado para a cidade. Peleja com a caixa de câmbio, vigia a imprudência dos outros motoristas, calcula milimetricamente para não cair em buracos da pista, enfrenta engarrafamentos, chega atrasado na entrega, leva bronca do patrão a quem ele responde mal e é mandado embora.

Um encarregado de um grande mercado acorda em sua casinha de classe média baixa num subúrbio qualquer, compra um pãozinho com moedas na padaria, chama os filhos para irem à escola municipal onde ganham merenda, olha com cara feia para a mulher que já não está mais em seus melhores dias de beleza, coloca uma roupa para pegar o trem e depois o metrô e depois um ônibus para três horas depois chegar no emprego que lhe paga um salário ridículo mas ele não encontra algo melhor.

Um professor de escola municipal se levanta de uma noite mal-dormida em que ele ficou pensando como não ser manipulado pelos jovens pervertidos de hoje e em como tentar fazê-los ao menos entender a matéria que leciona. Ao tomar café, ele liga a televisão e vê uma propaganda do governo federal enaltecendo os de sua classe e aparece em sua tela mental o contra-cheque magro de todo fim de mês.

Um publicitário que não dormiu porque estava pensando em como fazer uma propaganda efetiva sobre o papel dos professores se lembra das contas a pagar e dos empréstimos que fez para manter um alto estilo de vida condizente com o que os anúncios promovem. Ele vê ao seu lado a namorada da semana dormindo diante de um copo de vinho e um prato de salada e se lembra de que ele mesmo precisa comer alguma coisa.

Uma namorada decide dormir na casa do novo namorado e ao acordar não sabe como fazer para chegar em sua própria casa. Descobre com o porteiro que ela pode pegar um metrô e assim ela o faz. Em casa ela pensa que na verdade não devia ter ido embora da casa do namorado, pois ela anda sem sorte em arrumar um emprego e ele é um publicitário famoso que podia muito bem sustentá-la, pelo menos enquanto o caso durar.

Um porteiro chega no trabalho às três horas da manhã enquanto todo o resto do prédio em que trabalha dorme. Naquele dia ele receberá várias correspondências, atenderá muitos hóspedes esperados ou inesperados, ouvirá bronca de síndico estressado, trocará conversa com as madames que passeiam com seus cachorros, jogará charme na nova faxineira do 401 e depois voltará para casa para ver a novela das duas, depois jantar um mexido do almoço que a mulher deixou no fogão e dormirá até a uma da manhã do dia seguinte para ir trabalhar de novo.

Uma madame pontualmente se arruma para levar o cachorro para passear, no exato momento em que sua filha adolescente chegar da escola com aquele bando de amigos neo-neopunks. No passeio ela encontra a vizinha do prédio da frente que também é sua amiga de ginástica e juntas elas reclamam dos maridos e das secretárias dos maridos.

Uma vizinha comparece religiosamente a academia todos os dias pela manhã para manter a forma para seu novo amante e ainda tem de aturar a mulher dele com quem tem de dividir a barra de exercícios e com quem ainda se encontra para passear com os cachorros. Para disfarçar, ela reclama do próprio marido.

Um marido trabalha o dia inteiro como administrador de um grande mercado para manter a própria família e a amante. Amanhã ele tentará negociar com os agricultores para que o preço das verduras caiam.

 

Questão de ponto de vista Março 28, 2008

Arquivado em: O lado da Fernanda — migratoria @ 5:01 am

 

Hoje ela resolveu tentar um batom vermelho. Eu gostei, ela não. Logo ela saiu e voltou com um pedaço de papel e arrancou a coisa fora. Seus lábios ficaram rosa escuro. Ela ainda ficou um tempo me encarando. Eu não disse nada.

Virando o rosto de um lado a outro ela observou a pele. Eu via os poros abertos, alguns cravos, uns pontos vermelhos de potenciais espinhas; via o desenho irregular das sobrancelhas, o nariz grande e a testa ainda sem marcas de expressão. Certamente ela também via, tanto que resolveu aplicar sobre tudo aquilo um líquido claro que pretendia esconder suas imperfeições. Eu achei que não escondia, mas a luz especial que ela acendeu fez com que a coisa funcionasse.

Ela então resolveu pegar o lápis de olho. Aproximou-se de mim, puxou com a mão esquerda a pálpebra direita e com a mão direita desenhou um traço preto e fino junto aos cílios. Sim, eu notei que estava um tanto torto, mas também não disse nada. Ela piscou, olhou profundamente para mim e sorriu. Eu também sorri.

Ela voltou a fazer os mesmos movimentos sobre a pálpebra esquerda e ali também tinham traços tortos. Ela piscou e sorriu novamente. Sim, o conjunto era lindo.

Pegando de um cotonete ela fez sombras em verde escuro pouco acima dos traços anteriores em ambos os olhos. Passou um pente pelos cílios, o que os deixou alinhados. Ela piscou repetidamente até o olhar pousar sobre mim com um carinho apaixonante. Eu me derreti, mas não disse nada.

Então ela voltou ao batom. Agora ela parecia não querer errar, porque ela abriu e estudou concentradamente diversas embalagens. Ela pegava uma delas, vinha para perto de mim, fingia passar nos lábios mas desistia. Fez isso umas cinco vezes até que ela pegou um gel quase transparente e passou. Houve brilho mas não cor. Ela me encarou séria, e eu achei melhor não dizer nada.

Ela soltou os cabelos que estavam presos e escovou os fios por inteiro. Ela sabia que aquilo era bonito e eu admirava com prazer. Deixei ela fazer a coisa com cuidado. Ela prendeu de um lado só, depois de outro só, até se decidir deixá-los livres mesmo. Apagou a luz especial que havia acendido há minutos atrás e sobre ela caiu apenas a luminosidade natural. Ela estava satisfeita. Eu também, e tanto estava que não disse nada.

Então eu ouvi vozes vindo da porta. Ela se afastou de mim por uns instantes e, quando voltou, não estava sozinha. Ela tornou a me encarar e, assim como ela, achei estar linda. Mas a outra moça que estava ao lado dela, que eu não conseguia ver, apenas ouvir, disse:

- Que você fez? Nem parece que se olhou no espelho. Tá horrível isso!

E eu pensei cá comigo: ora, bolas! Então o que é que eu podia fazer?

 

Reflexões De Um Espelho Março 10, 2008

Arquivado em: O lado da Vanessa — poroutrolado @ 9:05 am

Não dá para passar inerte por um espelho. Definitivamente. Pelo menos comigo é assim e acho que com a maioria das pessoas. A vida pode estar corrida, você pode estar atrasado, pode estar até chovendo, mas ao passar por um espelho você pára. Pelo menos por alguns segundos. Nem que seja para tirar o cabelo que está na cara.

Quanto maior, mais difícil fica de ignorá-lo. Paredes tomadas por espelhos, então! Uma loucura. Praticamente impossível não parar um pouco para ajustar a roupa ou dar um sorriso. Lógico, fingindo que aquele sorriso não é para o espelho. Apenas um ensaio de como fazer quando encontrar aquela pessoa. Ou, melhor dizendo, outro espelho.

Porque, sim, pessoas, realmente, são espelhos. Sejam elas amizades, namorados, parentes, ou desconhecidos. Todos são espelhos e refletem umas às outras. Nem sempre por inteiro, nem sempre no primeiro momento. Às vezes mostrando qualidades, às vezes defeitos, mas espelhos. Não iguais! Isso já é outra coisa…

Eu sei, a falta de luz pode não ajudar a visão em algumas situações. Só não se desespere se isso acontecer. Basta ter paciência e tato para encontrar e apertar o interruptor. Um abajur talvez. Caso contrário, a escuridão, com o tempo, se tornará presente o suficiente para que a vista se acostume. Mesmo que você não queira, os detalhes serão identificados. Ao menos que prefira fugir e fechar os olhos. E esta pode ser a pior opção…

E, lógico, acontece da pessoa fingir não perceber o outro. Não é fácil se encarar. Existem espelhos então que podem até aumentar ou diminuir seus traços! Imagina? Melhor passar, dar aquela olhada de lado e seguir o caminho. Sem parar! E isso, antes de tudo, requer muita coragem, convenhamos. Ou medo. Afinal, nunca se sabe o que se pode enxergar em um reflexo. Pra quê causar uma revolução interior por livre e espontânea vontade? Mudança requer iniciativa e força. Não mesmo… Só que tem uma coisa: mesmo passando batido, um pensamento vai ficar. “Eu podia ter parado… O que será que tinha naquele espelho?”. Dúvidas… que podem doer muito mais do que a certeza.

Ah, a certeza… Pode ser fulminante ao ponto de afastar ou a razão de um começo, talvez até de um recomeço. Pode terminar em paixões, ou quem sabe trazer à tona uma decepção inesperada. É definitivo, sabe? Nada daquele chato e sem graça “mais ou menos”. Algo tão certo que provoca rumos, idéias, sentimentos. Tá, que nem sempre agradam, mas que pelo menos são verdadeiros. E é isso que dá base para o resto. É branco ou preto. Por mais que o céu esteja cinza e nublado para os outros. No mínimo, evita que a chuva caia um dia sobre a sua cabeça.

É difícil, eu sei… Mas depois de tantos erros e acertos, eu vejo que é melhor ser assim. De modo que eu só tenho trocado de espelhos. Só isso. Mudando tamanhos e molduras, às vezes sem critério algum! Uns grandes, outros pequenos, daqueles de guardar na bolsa. Espelhos com mosaicos na beirada, outros de madeiras e ainda os de flores. Mas cada um refletindo um pouco de mim. Trazendo lados de uma pessoa que anda a passos largos pelos enganos da vida. Pedaços que, no final, só servem para me tornar cada vez mais real. Tanto para os olhos alheios, quanto para os meus.

 

Para Você, Com Carinho Janeiro 1, 2008

Arquivado em: O lado da Vanessa — poroutrolado @ 2:21 am

Ainda não cheguei, mas tenho sentido tanto suas esperanças e sua fé em mim que resolvi lhe escrever. Conversei com 2007 e ele também achou que você deveria saber algumas coisas. Um pouco antes da hora, eu sei, mas achei necessário. Espero que entenda.

São tantos pedidos, tantas apostas depositadas em mim que eu me sinto pesado antes mesmo de entrar em ação. E eu não falo apenas de você, não. Imagine o mundo inteiro lhe pedindo coisas e mais coisas! Nas mais diversas línguas e formas! Saúde, paz, amor, dinheiro, sucesso… Estão nas camisas, nas palavras, nos copos e até nas calcinhas! Dá pra pirar qualquer um! É muita pressão. Só não entro em crise porque já estou velho pra isso. Afinal, são 2008 anos, né? Enxutos e bem vividos, diga-se de passagem, mas 2008 anos. Alguma experiência eu já devo ter para lidar com o animal racional mais irracional que Deus inventou: o homem.

Eu gosto e estou empolgado para iniciar o trabalho. Não nego. O homem é uma caixinha de surpresas e é desafiador deixá-lo feliz com o que está ao seu redor. Não digo sempre feliz, pois isso também não teria graça. Até ele acharia entediante. O que eu tento é dar equilíbrio para as pessoas, perdidas entre pensamentos e sentimentos. A famosa paz. E eu nem to dizendo a mundial, não. A paz interior de cada um mesmo. Ela é fundamental para que se consiga discernir o que lhe faz bem dentre as opções que se apresentam. E costumam ser muitas… Aí é onde mora toda complicação.

O que estou querendo lhe dizer é… Não sou eu que vou lhe dar saúde, amor, dinheiro e qualquer outro presente. Eu não vou embalar isso numa caixa, com um laço lindo em cima, e lhe enviar como o Papai Noel faz. O meu papel não é esse. Por mais que as pessoas insistam em vestir roupas coloridas tentando me sinalizar seus desejos para que eu os atenda. Aliás, quem inventou essa tal tabelinha dizendo que vermelho é isso, amarelo é aquilo, e blá blá blá? Caramba! Nós, anos, ficamos malucos com esse festival de cores. Até porque essa tabelinha com significados costuma variar de lugar pra lugar! Uma confusão! Sem esquecer das pessoas que vestem todas as cores! Como se estivessem dando de espertas pra cima da gente, é mole? Aí passa o ano, nada acontece e saímos como o carrasco da história. Não, não… Isso não pode ficar assim. Alguém precisa explicar como nós, os anos, trabalhamos. E esse alguém será eu, já que 2007 está saindo cansado após sua carga-horária. Bom, então vamos lá!

A minha função primordial é lhe ajudar. É como se eu colocasse placas pela estrada. Setas, opções, lugares distintos a cada curva que você escolheu passar. Está sem dinheiro? Está sem namorado ou namorada? Não tem sucesso na vida? Está sem amigos? Precisa de paz? Bom, independente da pergunta a minha resposta será a mesma: você é o responsável por tudo isso. Única e exclusivamente você. Eu sei, estou pegando pesado. É uma bomba pensar que se está triste, a culpa é sua. É ruim, dói, mas eu não vou mentir… Parece até papo de psicólogo, mas é a pura verdade! Agora respira. Calma… O outro lado também é real: se a responsabilidade é sua, você, mais do que ninguém, pode consertar. Está com você o próximo passo da sua vida. Querer já é o começo de tudo. Vai por mim…

Por exemplo, se o que lhe falta são amigos, pare um pouco para pensar como tem agido no decorrer dos anos. A solução do problema vai sair daí. Com toda certeza. Tem estado ao lado deles? E eu nem estou falando de presença física. Pensar já é uma forma de estar junto. Torce por eles e faz o que pode quando precisam de ajuda, independente da distância e do tempo? Às vezes, os rumos das pessoas são diferentes, eu sei. Mas amizade mesmo, amizade da boa, resiste a essas coisas. Fica intacta, apenas esperando um próximo encontro. Não tem mistério… Quando você dá atenção, carinho e respeito, isso volta. Talvez não da forma que esperava, mas volta. Aí cabe aos seus olhos ajustar suas expectativas diante do outro.

Tire da cabeça a idéia de que você só conhece gente que não presta! Está cheio de pessoas maravilhosas por aí. Verdade! Não feche as portas para quem gosta de você só porque alguém lhe sacaneou no passado. Não faça regras a partir de casos. Da mesma maneira, não seja desleal com quem lhe vê como amigo. Saiba se doar. Dê um pouquinho de você para o outro porque é o bem dele que você quer. Amizade nunca se sustenta de um lado só. Aliás, relação nenhuma. Mal construída, uma hora explode.

E amor então? Os anos já lhe ofereceram muitos! Alguns mais baixos, outros mais bonitos, uns mais gordinhos, enfim, de todos os tipos e maneiras, mas todos querendo te encher de beijos! Amores em potencial que, simplesmente, passaram. Só porque você não os percebeu ou não entendeu a importância deles o suficiente para que pudesse lutar para que ficassem em sua vida. Os deixou passar e não notou o amor bem ali do seu lado. Ou pior: nem chegou a conhecê-los! Talvez porque estivesse de mau-humor ou o que é mais comum: focado em outros assuntos, temas e pessoas que nunca tiveram o valor que você atribuía a eles.

O ser-humano tem disso… Às vezes cisma com o que não deve por causa de algum medo ou insegurança. Insiste no que é errado e sabota a sua própria felicidade! Aí sobra pra gente: os anos! Temos que entrar em ação para tentar lhe mostrar a SUA verdade. Não a nossa. Damos sinais, causamos encontros e desencontros até você acordar pra você mesmo. E uma hora acontece! Agora, o interessante é que o ano que consegue isso sai com a fama de vitorioso e os outros com a fama do problema. Calma lá… Os anteriores também tentaram lhe despertar. Faz tudo parte de um processo. O tempo pra isso acontecer depende muito do seu grau de teimosia e orgulho. Ai, esses defeitinhos humanos… Como não dão trabalho…

E o tal do dinheiro? O homem condicionou toda a sua vida em função dele. Passou da questão de lhe oferecer sobrevivência. Se a pessoa não tem dinheiro para comprar o carro do ano, o computador mais equipado ou aquele sapato de couro… pronto! É infeliz! Opa… Vamos parar com isso! Eu sei que é necessário, mas não deixe ele comandar suas decisões. Não se envenene por dólares, euros, reais… Na dúvida sobre o que fazer, ponha na balança: você de um lado e o dinheiro do outro. Quem pesará mais? Afinal, quem é que manda na sua vida? 

E mais! Ele pode ser uma conseqüência se você conhece seus talentos, e sabe aonde pode melhorar. O sucesso financeiro vai vir se você não ficar parado em mim. Eu ando, você também precisa andar, meu caro. Como eu posso lhe ajudar se você não se mover? As oportunidades estão espalhadas por todos os cantos. Não vê? Não existe apenas uma alternativa de vida. Confie.

Enquanto isso, por favor, não abuse de você. Não se acabe em bebidas, cigarros ou outras drogas humanas. Não que elas não causem prazer. Acontece que a sua casca é frágil. Não pegue peso se já estiver fraco, não exija movimentos que seu corpo não é mais capaz de fazer. Conheça seu limite. Como ter saúde se você não colabora? E tá… Tem doenças que chegam sem explicação. E aí? Bom, eu não posso lhe explicar tudo… Não tenho permissão pra isso. Entre o céu e a terra tem milhões de coisas que o homem nem sonha que existem! E não sou eu que vou contar. Mas posso lhe dizer em letras garrafais: VIVA SUAS VONTADES! Seja real consigo mesmo antes de tudo. E se errar? Aprenda. Pelo menos, você seguiu os seus desejos naquele momento. Mesmo que eles tenham mudado com o tempo. E isso acontece mais do que você imagina! Eu mudo, eu passo, outro ano chegará depois de mim. Você também muda. E se quiser, para melhor. Sendo fiel aos seus valores e aos seus sonhos, meu amigo, pode vir a doença que vier… Nada vai estar pela metade dentro de você. Nenhuma dívida pendente com o seu coração.

Entende o que eu falo? Por favor, pare de ficar preocupado comigo, com 2009 e com os outros anos que virão pela frente. Se preocupe com você, antes de tudo! Olhe pra você, pro seu dia-a-dia, para o que gosta, para quem gosta. Não diga que 2007 foi ruim ou que deixou a desejar. Apure o seu olhar para o ano que passou e acredite: o que é seu está guardado. Só falta buscar. E, às vezes, isso demora mesmo. É todo um processo de aprendizado que você só conseguirá compreender por completo depois de finalizado. Por isso, enquanto não consegue enxergar o plano da vida, acerte o seu passo com o meu. Que tal?

Vamos combinar uma coisa? Eu prometo chegar devagar para não lhe confundir. Serei o mais transparente possível para que compreenda meus pontos e vírgulas. Terei calma para lhe enviar todos os sinais necessários para que perceba a melhor direção. Estarei no sopro do vento, na brisa do mar, na chuva que cair, no sol que lhe der bom dia. Cantarei músicas e lerei poemas para os seus sentidos através da minha natureza e do meu tempo. Estarei lhe acompanhando como um amigo, cheios de meses, dias e horas para lhe dar colo, se for o que quiser. E força para seguir em frente. Já você… Tem que me prometer deixar a pele sensível, ouvidos atentos, olfato aguçado, paladar apurado, olhos focados e a mente quieta. Você tem que me prometer que, pelo menos vai tentar, deixar seu coração aberto…

Um beijo carinhoso e a gente se vê daqui a pouco.
Pode acreditar: eu, realmente, estou doido para te abraçar.

2008

 

Para 2008, com carinho Dezembro 28, 2007

Arquivado em: O lado da Fernanda — migratoria @ 9:27 am

Caro 2008,

você deve achar estranho eu estar escrevendo para você sem ao menos o conhecer. Perdoe-me a ousadia, mas eu tenho a teimosa mania de ter esperança sobre o futuro. Uma vez me disseram que o tempo cura as feridas e eu aprendi que esta frase é uma das poucas verdades que existem no mundo. Então eu olho para você e já acredito que você será um ano melhor que 2007 foi.

Não estou sendo ingrata ao já me desfazer deste ano que se acaba. 2007 foi bom para mim, mas o que ele tinha a oferecer já foi oferecido. O que eu aguardo ansiosamente é por mais dias, e esta carta é para pedir-lhe permissão para curtir você com intensidade.

Há coisas que eu desejo profundamente em minha vida. O principal dentre esses desejos é o de realizar sonhos. Minhas idéias sempre ficaram muito presas à minha cabeça, mas eu admito estar cansada de ver a vida pelo travesseiro. É fato que eu não tenho sido muito corajosa; há momentos em que eu me percebo muito conservadora e conformista. Não quero, por outro lado, ser rebelde. Queria que você trouxesse aos meus dias algo que tem faltado: dinamismo. A rotina tem me deixado um tanto cega e embrutecida.

Talvez 2007 faça para você um perfil meu antes de ir-se embora. Espero que este relato mostre o quanto, há tempos, eu venho sofrendo por não saber meu lugar no mundo. Vou conhecer você com a angústia de quem procura por algo sem saber exatamente o que está procurando. Você há de notar que eu me escondo para não ver com clareza as dúvidas que me cercam. São dúvidas existenciais, sim, mas outras tantas são extremamente práticas. 365 dias podem ser poucos para aplacar este vazio, mas eu gostaria de encontrar em você um momento, que seja, de paz e preenchimento. Oriente-me nesta busca, meu ano bom!

Minha conta bancária não vê a vida azul há tempos. Isso, eu admito, por minha culpa, minha única culpa. E só de pensar nas origens dessas calças curtas eu já entro em auto-punição. Estou me esmerando em disciplina e economia para aprender o valor do dinheiro, mas o meu período de privação está longo demais. Se você quiser, eu me visto de amarelo para o nosso primeiro encontro, às primeiras horas da madrugada. Amarelo, para sua informação, é a cor de que menos gosto, mas faço o sacrifício de usá-la para ser agraciada com rendimentos melhores nos dias em que passarmos juntos.

Quando eu conheci seu velho amigo 2006, eu recebi uma notícia que, à época, não foi agradável. Custaram-me dois anos para superar aquele telefonema e para perceber que a notícia era, de fato, um presente. Sim, o tempo cura. E o tempo curou até demais. 2007 há de lhe dizer que eu estou esperando por um homem que venha a somar em minha vida, e não a subtrair, ou a me dividir ou a me multiplicar sem ganhos. Será você que me irá trazê-lo?

Ah, meu bom ano! Quero aproveitar cada hora dos seus dias, lendo os livros que ainda não li, aprendendo o que ainda não aprendi, encorajando o que ainda não encorajei! Não me deixe perder valioso tempo com preguiça, sono ou desilusões demais. Troque o disco da minha trilha sonora e deixe minha vida mais rock’n'roll. Já vou ajudando, dizendo que eu concordo com os Rolling Stones quando eles cantam: “Você não pode sempre receber o que você quer, você recebe o que precisa”. Eu espero que você acredite que eu preciso de tudo aquilo que eu quero.

Mas desde já vou lhe adiantando: será um prazer conhecê-lo.

Com toda a sinceridade com que lhe recebo em minha vida,

Fernanda.

 

Detalhes tão pequenos de nós duas Dezembro 3, 2007

Arquivado em: O lado da Fernanda — migratoria @ 7:14 am

Minha vida e eu

Um simples passeio pela rua pode revelar coisas interessantes sobre mim mesma. Falando assim, até parece que cada dia que eu vivo é cheio de grandes acontecimentos. Mas não é bem assim. Eu estou me referindo a detalhes do cotidiano, que passariam batido a olhos mais acostumados a ver os pequenos acontecimentos como garantia. È verdade que eu penso demais, mas simplesmente eu não consigo deixar passar as coisas que eu percebo na minha relação com o mundo. Não que eu seja especial ou queira me fazer parecer como tal. Não, essa é apenas a forma que eu aprendo a viver.

Gostaria de descrever um pequeno intervalo de quatro horas deste meu domingo.

Para começar, eu saí só. Há muito, é claro, que eu venho me divertindo sozinha, desde que eu morava em Campinas. Sim, isso soa triste, não ter companhia para um cinema domingo à noite. Eu costumava pensar em quão deprê era estar numa situação dessas, até que eu aprendi que eu também posso me divertir comigo mesma numa boa. Ainda mais que já reclamaram comigo que eu falo muito durante a exibição de filmes. Cinéfila que sou, é realmente difícil me abster de algum comentário sobre atores, diretores ou equipes técnicas, “detalhes” que eu acompanho com muita curiosidade. Agora, quando eu vou ao cinema, e estou sozinha, o casal ao lado pode até achar estranho eu estar vibrando com alguma coisa aparentemente sem importância, mas lá estou eu apenas a aprimorar meu hobby favorito.

E talvez seja até melhor fazer esse programa sozinha. Durante o filme, eu esqueço do resto, inclusive da minha companhia, absorvida que eu fico com aquilo. Um amigo meu certa vez me disse: “Você acredita mesmo em cinema”. E talvez ele tenha razão. Não faço questão nenhuma de ser espertinha e tentar adivinhar o final quando ainda estão se desenrolando as primeiras cenas. Do contrário, qual é a graça? Eu não me importo quando eu sei ou quando me contam o final do filme. Eu acho que o importante é observar como o enredo chega até lá. Há outro detalhe aqui: não, eu não saio de uma sala de cinema, nem que seja o pior filme da face da Terra. Eu entendo que nem todos têm esta resiliência. Eu só peço que, se for o caso, os incomodados se retirem; odeio quando ficam xingando o filme nos meus ouvidos. Agora, quando eu saio da sala, a minha crítica é feroz. Mas a gente não pode criticar se não viu a história toda, não é mesmo? Isso eu aprendi na teoria do jornalismo, algo, aliás, que só eu estudei na faculdade. Talvez por isso eu tenha desistido de ser jornalista e virado professora. Professora de inglês.

Depois eu comprei uma agenda para o ano que vem. Sobre isso, dois “detalhes”. Um, o de eu estar, cada vez mais, preocupada em anotar meus compromissos e ter a satisfação de riscá-los quando cumpridos. Isso me dá uma sensação muito visível de o quanto eu estou ficando mais responsável. Dois, o fato de eu preencher o formulário de dados pessoais de uma maneira muito particular. Eu notei que eu escrevo o endereço e o telefone a lápis. Há algo dentro de mim que sempre diz baixinho: por que eu vou colocar essa informação a caneta, vai saber lá onde eu posso estar amanhã? São nesses detalhes que eu observo meu coração migratório e minha vontade de bater asas assim que o vento da boa oportunidade soprar em minha janela.

Na hora de ir para casa, outro detalhe curioso. Eu havia estacionado o carro num local muito próximo à saída. Sim, eu poderia ter embicado o carro em direção ao caixa e ido embora pra casa rapidinho. Mas não o fiz. Eu dei a volta no estacionamento para fazer o trajeto regulamentar e isso demorou uns 15 minutos. O dia em que eu dei uma de joão-sem-braço e dei ré em quase metade de uma rua para colocar o carro numa vaga única, sem precisar ter que dar uma volta de quatro quarteirões para chegar até ela novamente, eu passei o dia inteiro pedindo desculpas a mim mesma. Os detalhes mostram o quanto eu obedeço às regras, mesmo que implícitas, das coisas. Às vezes eu chego a ser bem quadradinha, com mania de combinar roupas, sapato com bolsa e até brinco com anel; organizar o carrinho de compras, separando secos de molhados, comestíveis de não-comestíveis, perecíveis de não perecíveis, e mantendo isso na hora de passar os produtos na esteira do caixa. Até minha bagunça tem uma certa ordem. Se isso é bom, eu já não sei. Dizem que eu sou perfeccionista e a fama, pelo que tudo indica, é procedente.

Pelos meus meros detalhes, dá para perceber quem eu sou, não? Pois é. Mas há aquelas pessoas que descartam isso. Preferem ficar esperando o momento bombástico para a vida ter sentido, enquanto os segundos passam. São pequenos esses segundos, mas somando-se todos eles, tem-se um dia inteiro. É por essas e outras que eu tenho acreditando sempre mais que os segundos deviam ser os primeiros.

 

Nada de inexorável! Novembro 19, 2007

Arquivado em: Escolhas da Vanessa — poroutrolado @ 8:22 am

Hoje é 19 de novembro e falta um boooooom chão para o meu aniversário! Ou seja, ao contrário da Fê, eu não estou ficando velha. Muito pelo contrário, eu estou, vamos dizer, na floooor da idade!

Dizem por aí que as pessoas quando são novas adoram divulgar a idade que tem. Exibir aos quatro ventos que ainda são novinhas enquanto o resto do mundo sofre de problemas na coluna, falta de memória e queda de cabelo. Não, não… Eu não faço isso de graça. Eu acho até interessante as pessoas me darem altas idades quando, na verdade, eu estou ainda começando a vida. Então, fique na curiosidade.

Sendo assim, fiz uma listinha também que mostra perfeitamente como a minha alma é extremamente jovial. Renew? Nem pensar! Eu ainda vivo de luz. Sem proteção nenhuma. Quando eu chegar na idade da Fê, eu penso nisso… hahaha

Ser completamente apaixonada por pipoca!
Eu não consigo resistir. É mais forte do que eu! E vale pipoca de tudo quanto é jeito: salgada, doce, misturada, pura, de panela, de microondas, com manteiga, leite condensado (em cima da salgada! A oitava maravilha do mundo!), orégano, sazon, queijo, e sei lá mais com quê! Enfim, sou viciada. Sei dizer qual pipoqueiro que capricha, qual engana e qual devia começar a trabalhar só com pelinha, deixando de lado o milho. Nunca fiz um regime, mas com certeza, se começasse um, pipoca é que não iria entrar na lista dos vetados. Sinto muito.
Ps: Quem souber uma receita maravilhosa, favor passar pra frente. Meu e-mail está neste Blog. Por favor, não esconda informação.

Ler revista em quadrinho até hoje!
E eu não estou falando de revista feita para adultos! Leio Mônica, Chico Bento, Cebolinha…rs Cascão e Magali eu leio menos. Eles são mais chatos! Agora, os outros??? Direto! É fácil me encontrar de bobeira com uma edição na mão. Após ler, às vezes, eu até passo a revistinha pra frente. Dou para algum pai de família ou irmão de criança, avó, enfim… Não sou egoísta, não, tá? Só tem dois problemas: o primeiro, é que volta e meia eu encontro alguma historinha que eu já conheço. E o segundo, é que rapidinho eu leio as revistas… Ou seja, o passatempo dura pouco. É… Isso aí de ler rápido é grave! Já mostra que a idade está chegando…

Sempre é dia de aprontar!
Dar susto nas pessoas, fazer surpresas, pegadinhas, pregar peças… Essas coisas. Não é à toa que meu vô fala que eu só tenho tamanho e sacanagem. É, eu adoro um mal feito, admito. Sou daquelas que apronta e ainda morre de rir. Mas não faço maldade, não. E nada muito grande (só de vez em quando… rs). As palhaçadas costumam ser no dia-a-dia mesmo. Minha molecagem é saudável… rsrs

Assistir desenho infantil
OK, ok, ok, aquela vez em que eu disse que precisava levar a minha priminha ao cinema pra ver um desenho… era mentira! EU queria ver o filme e chamei ela. Pronto. Falei!;o) E já fiz isso outras trocentas vezes, sem contar aqueles que assisto em casa mesmo. O único ruim é quando determinado desenho só tem versão dublada. Aí é dose porque criança no cinema aplaude, grita, fala alto, essas coisas. Pelo menos dessa fase eu passei, né? Se bem que pensando aqui, eu nunca fiz isso em cinema, não. Pô, “mó mico” fazer isso, fala a verdade!

Gostar de jogar vídeo-game
Mas tem que ser aqueles de passar fases, conquistar coisas no decorrer do trajeto e tal. Quer desafio maior do que fechar um troço desse?? Nada daquelas lutinhas em que você tem que combinar o botão A com o botão B com três toques para baixo pro cara dar um salto ninja na cabeça do adversário, logo após de ter dado um parafuso. Não, não! Meu espírito jovial é feminino! Ora ora…

Brincar com criança
Se você me encontrar no chão de duas uma: ou estarei dançando ou brincando com o filho de alguém. Pode ser com bonecos, com carrinho, com legos… Sem preconceito! Dependendo do que for é capaz de eu me divertir mais do que o ser pequeno. O danado vai ser descobrir quem é a criança nesse caso… 

Bom, agora chega de lista. Daqui a pouco você vai começar a achar que eu tenho problemas sérios na cabeça… De preferência um atraso mental! rs
 

 

Enfim, o inexorável Novembro 12, 2007

Arquivado em: O lado da Fernanda — migratoria @ 5:15 am

Hoje é 12 de novembro e falta, exato, um mês para o meu aniversário.

Dizem por aí que mulheres não devem divulgar a idade que têm. Eu nem ligo. Até porque eu não estou fazendo uma idade tão avançada. Completarei 27 anos naquela que eu considero uma data especial. Adoro o dia do meu aniversário, adoro ser sagitariana e adoro até o fato de que a proximidade com o Natal sempre fez eu ganhar só um presente em dezembro.

Eu não sinto que já se passaram 27 anos; feliz ou infelizmente, sinto que foram menos. Em todo caso, até agora eu já vivi um bocado para dizer que eu aprendi muita coisa. Mas a questão que não cala é a de que eu estou, sim, ficando velha e algumas de minhas atitudes já demonstram isso.

Talvez a principal prova de que eu esteja precisando começar a usar Renew seja uma convicção à primeira vista estranha e sempre mal-compreendida. E esta convicção é a de que não adianta mais ficar rodeando assunto. Nada como uma conversa franca e direta, sem joguinhos, sem indiretas, sem desculpas esfarrapadas e sem insinceridades.

Por isso, eu fiz uma pequena lista que demonstra a minha real e honesta percepção de que a idade chega para todos, e está batendo, mesmo que de leve, na minha porta. Eis o espírito com que eu inaugurarei mais um ano de vida.

 

Observar o que acontece com os mais velhos

Minha irmã é quatro anos mais velha do que eu. Esta semana, ela passou por um problema sério de saúde: fortes dores na coluna e travamento muscular. Ela mal conseguia se mexer e teve de tomar um remédio que é indicado para pós cirurgias ortopédicas. Fui eu quem a levou ao médico e que acompanhou todo o diagnóstico. Enquanto a consulta e os procedimentos ocorriam, eu só ficava observando. Meu pai têm, também, problemas de coluna como estes. E tanto ela quanto ele sofrem da coisa pelo mesmo motivo. Dentro do meu coração, eu senti uma voz me falando: “Veja isso, garota. Não faça igual. Continue suas corridas ao ar livre pela manhã, continue comendo seu arroz integral, mas não deixe o mesmo acontecer com você”.

Se existe algo relacionado à saúde que me faz tremer nas bases é a possibilidade de ficar diabética. Temo isso como a minha mãe teme barata voadora no escuro. E o pânico até tem certo fundamento, porque tanto de um lado quanto de outro da família existe aquilo que meu tio chama de “fábrica de açúcar”, ou seja, vários diabéticos. Só de pensar na hipótese de que eu terei o-bri-ga-to-ri-a-men-te de abrir mão do meu brigadeiro eu desfaleço. Então eu acabei chegando a conclusão de que o melhor, hoje, é comer doce com moderação. Melhor do que jamais comer doce no futuro.

 

Trocar o foco da referência

Quando eu era adolescente, eu percebia que a referência das coisas sempre era aquilo da mais ultra novidade no mercado. Estar em dia com o mundo significava estar no mesmo lugar dos lançamentos.

Sim, a vida atual nos leva a estar em dia com tudo o que acontece ao redor. Mas eu aprendi que novo não significa melhor. Já foi o tempo, por exemplo, em que eu ficava com comichão para ouvir o novo álbum do U2. Hoje, eu pego na minha estante aquele velho Joshua tree e tenho o melhor dos momentos. Até porque, se a gente observar o Sr. Bono Vox hoje, nem mais “boa voz” ele tem.

Às vezes eu me refiro a João Penca e seus Miquinhos Amestrados e as pessoas que me ouvem dizer isso não só riem do nome como riem da minha velhice em citar algo que ninguém mais conhece. Eu, por mim, já não me importo. Quanto mais a gente fica velho, mais a gente entende a expressão “valor sentimental”.

 

Ter vontade de ler tudo de novo

Eu sinto uma vontade incontrolável de ler tudo de novo. Ler de novo todos os livros que eu li anos atrás e que eu interpretei de outra forma. E isso acontece com filmes, com letras de música, com velhos diários, com agendas aposentadas. Isso, no entanto, pode ser perigoso. Entender as coisas com mais clareza assusta.

 

Pensar em como vou receber meus filhos no mundo

Sabe aquela famosa frase do Sílvio Luís: “O que é que eu vou dizer pro meu filhinho?”. Pois é, eu tenho pensado nela nos últimos anos, mas não em relação a futebol. Não é nem uma questão de que tipo de exemplo eu vou ser para minha prole um dia. Isso seria contra a minha própria natureza de ser, ao menos, coerente comigo mesma. Não queria ser como aqueles que foram hippies tresloucados e hoje são os pais mais caretas da face da Terra.

Não, não é isso. Eu fico pensando no que eu vou oferecer quando meus filhos chegarem à minha vida. Vou ser uma mãe inteligente e ainda bonita, que trabalha fora, que tem uma estante cheia de memórias divertidas, que inventa boas histórias para contar à noite na hora de colocá-los para dormir? Talvez eu esteja tendo um pensamento classe média, mas, afinal, eu sou filha de classe média.

O que eu queria era fazer da infância dos meus filhos uma coisa boa. E, quanto mais o tempo passa, mais eu vejo quantas coisas eu gostaria de fazer antes de virar mãe. Tantos livros, tantos discos, tantas viagens, tantos tantos antes. Mas eu queria viver todos esses tantos para ser melhor para eles.

E isso, sub-repticiamente, mostra que eu preciso arrumar um emprego melhor.

 

Ter paciência com o erro dos outros

Dar conselho é uma das práticas mais complicadas da humanidade. Coisinha difícil essa, de ajudar alguém a encontrar a ponta do novelo ou a saída de emergência para as coisas da vida. Hoje eu evito ao máximo abrir a boca para dar minha opinião sobre a vida de alguém, mesmo que instigada a isso. Só o faço com pessoas muito próximas e, neste caso, às vezes, admito, até falo demais.

Mas o que acontece de interessante é que, quando eu vejo um amigo passando por um problema que eu já tenha experimentado, eu sinto uma enorme compaixão por tudo. É claro, eu tenho essa sina de gostar das pessoas pelo que elas têm de defeito. Mas, é claro, defeito demais também irrita. Mas se o defeito for algo que eu tenho como familiar, a pessoa certamente contará com a minha paciência.

Isso é complicado. Muitas vezes as pessoas estão experimentando aquele aperto pela primeira vez, se esbravejam com facilidade tremenda e acabam ferindo minha paciência quase apaixonada diante delas. Mas tudo bem, eu entendo que esses trovões todos também fazem parte da coisa.

 

Poder dizer que errei porque quis

Sim, as situações na vida da gente, quando mal resolvidas, tendem a se repetir. Não com a mesma pessoa, mas em roupagens novas que, no entanto, em essência, são as mesmas. O cerne da questão, obviamente, é saber reconhecer que as coisas se repetem. E aí, quando a gente percebe que o filme parece estar recomeçando, é bem bacana poder dizer para a gente mesmo: “Tá, eu vou entrar nessa de novo porque eu quero”. É muito ruim ser vítima do destino.

 

Não ter paciência com gerações mais novas

Houve um período em que eu achava minha infância e minha adolescência terríveis. Eu olhava para pessoas mais velhas do que eu e acreditava que elas tinham vivido esta fase de forma melhor do que eu vivi a minha.

Hoje um simples passeio pela rua, num sábado à noite, vem me mostrar a nova geração, da qual eu não mais faço parte. Quando eu vejo os novos adolescentes, eu acho tudo tão esquisito! As roupas que eles vestem não me agradam. A forma como eles se comportam me incomoda. As conversas me entediam. As histórias que eles contam não têm graça.

Então eu experimento da auto-confiança dos mais velhos quanto ao passado. O segredo não é que minhas experiências foram melhores. Eu simplesmente fiz as pazes com o que eu vivi até agora. E aí, sim, a coisa tem um sabor que parece impossível não achar mais interessante. Não há outro lugar em que eu gostaria de estar senão na minha própria idade.

E às vezes eu mesma me pego praguejando como o meu pai, que olha os meninos e as meninas aglomerando os espaços e, balançando a cabeça, diz: “Que saudade de quando eu era pequeno!”.