Hoje é 12 de novembro e falta, exato, um mês para o meu aniversário.
Dizem por aí que mulheres não devem divulgar a idade que têm. Eu nem ligo. Até porque eu não estou fazendo uma idade tão avançada. Completarei 27 anos naquela que eu considero uma data especial. Adoro o dia do meu aniversário, adoro ser sagitariana e adoro até o fato de que a proximidade com o Natal sempre fez eu ganhar só um presente em dezembro.
Eu não sinto que já se passaram 27 anos; feliz ou infelizmente, sinto que foram menos. Em todo caso, até agora eu já vivi um bocado para dizer que eu aprendi muita coisa. Mas a questão que não cala é a de que eu estou, sim, ficando velha e algumas de minhas atitudes já demonstram isso.
Talvez a principal prova de que eu esteja precisando começar a usar Renew seja uma convicção à primeira vista estranha e sempre mal-compreendida. E esta convicção é a de que não adianta mais ficar rodeando assunto. Nada como uma conversa franca e direta, sem joguinhos, sem indiretas, sem desculpas esfarrapadas e sem insinceridades.
Por isso, eu fiz uma pequena lista que demonstra a minha real e honesta percepção de que a idade chega para todos, e está batendo, mesmo que de leve, na minha porta. Eis o espírito com que eu inaugurarei mais um ano de vida.
Observar o que acontece com os mais velhos
Minha irmã é quatro anos mais velha do que eu. Esta semana, ela passou por um problema sério de saúde: fortes dores na coluna e travamento muscular. Ela mal conseguia se mexer e teve de tomar um remédio que é indicado para pós cirurgias ortopédicas. Fui eu quem a levou ao médico e que acompanhou todo o diagnóstico. Enquanto a consulta e os procedimentos ocorriam, eu só ficava observando. Meu pai têm, também, problemas de coluna como estes. E tanto ela quanto ele sofrem da coisa pelo mesmo motivo. Dentro do meu coração, eu senti uma voz me falando: “Veja isso, garota. Não faça igual. Continue suas corridas ao ar livre pela manhã, continue comendo seu arroz integral, mas não deixe o mesmo acontecer com você”.
Se existe algo relacionado à saúde que me faz tremer nas bases é a possibilidade de ficar diabética. Temo isso como a minha mãe teme barata voadora no escuro. E o pânico até tem certo fundamento, porque tanto de um lado quanto de outro da família existe aquilo que meu tio chama de “fábrica de açúcar”, ou seja, vários diabéticos. Só de pensar na hipótese de que eu terei o-bri-ga-to-ri-a-men-te de abrir mão do meu brigadeiro eu desfaleço. Então eu acabei chegando a conclusão de que o melhor, hoje, é comer doce com moderação. Melhor do que jamais comer doce no futuro.
Trocar o foco da referência
Quando eu era adolescente, eu percebia que a referência das coisas sempre era aquilo da mais ultra novidade no mercado. Estar em dia com o mundo significava estar no mesmo lugar dos lançamentos.
Sim, a vida atual nos leva a estar em dia com tudo o que acontece ao redor. Mas eu aprendi que novo não significa melhor. Já foi o tempo, por exemplo, em que eu ficava com comichão para ouvir o novo álbum do U2. Hoje, eu pego na minha estante aquele velho Joshua tree e tenho o melhor dos momentos. Até porque, se a gente observar o Sr. Bono Vox hoje, nem mais “boa voz” ele tem.
Às vezes eu me refiro a João Penca e seus Miquinhos Amestrados e as pessoas que me ouvem dizer isso não só riem do nome como riem da minha velhice em citar algo que ninguém mais conhece. Eu, por mim, já não me importo. Quanto mais a gente fica velho, mais a gente entende a expressão “valor sentimental”.
Ter vontade de ler tudo de novo
Eu sinto uma vontade incontrolável de ler tudo de novo. Ler de novo todos os livros que eu li anos atrás e que eu interpretei de outra forma. E isso acontece com filmes, com letras de música, com velhos diários, com agendas aposentadas. Isso, no entanto, pode ser perigoso. Entender as coisas com mais clareza assusta.
Pensar em como vou receber meus filhos no mundo
Sabe aquela famosa frase do Sílvio Luís: “O que é que eu vou dizer pro meu filhinho?”. Pois é, eu tenho pensado nela nos últimos anos, mas não em relação a futebol. Não é nem uma questão de que tipo de exemplo eu vou ser para minha prole um dia. Isso seria contra a minha própria natureza de ser, ao menos, coerente comigo mesma. Não queria ser como aqueles que foram hippies tresloucados e hoje são os pais mais caretas da face da Terra.
Não, não é isso. Eu fico pensando no que eu vou oferecer quando meus filhos chegarem à minha vida. Vou ser uma mãe inteligente e ainda bonita, que trabalha fora, que tem uma estante cheia de memórias divertidas, que inventa boas histórias para contar à noite na hora de colocá-los para dormir? Talvez eu esteja tendo um pensamento classe média, mas, afinal, eu sou filha de classe média.
O que eu queria era fazer da infância dos meus filhos uma coisa boa. E, quanto mais o tempo passa, mais eu vejo quantas coisas eu gostaria de fazer antes de virar mãe. Tantos livros, tantos discos, tantas viagens, tantos tantos antes. Mas eu queria viver todos esses tantos para ser melhor para eles.
E isso, sub-repticiamente, mostra que eu preciso arrumar um emprego melhor.
Ter paciência com o erro dos outros
Dar conselho é uma das práticas mais complicadas da humanidade. Coisinha difícil essa, de ajudar alguém a encontrar a ponta do novelo ou a saída de emergência para as coisas da vida. Hoje eu evito ao máximo abrir a boca para dar minha opinião sobre a vida de alguém, mesmo que instigada a isso. Só o faço com pessoas muito próximas e, neste caso, às vezes, admito, até falo demais.
Mas o que acontece de interessante é que, quando eu vejo um amigo passando por um problema que eu já tenha experimentado, eu sinto uma enorme compaixão por tudo. É claro, eu tenho essa sina de gostar das pessoas pelo que elas têm de defeito. Mas, é claro, defeito demais também irrita. Mas se o defeito for algo que eu tenho como familiar, a pessoa certamente contará com a minha paciência.
Isso é complicado. Muitas vezes as pessoas estão experimentando aquele aperto pela primeira vez, se esbravejam com facilidade tremenda e acabam ferindo minha paciência quase apaixonada diante delas. Mas tudo bem, eu entendo que esses trovões todos também fazem parte da coisa.
Poder dizer que errei porque quis
Sim, as situações na vida da gente, quando mal resolvidas, tendem a se repetir. Não com a mesma pessoa, mas em roupagens novas que, no entanto, em essência, são as mesmas. O cerne da questão, obviamente, é saber reconhecer que as coisas se repetem. E aí, quando a gente percebe que o filme parece estar recomeçando, é bem bacana poder dizer para a gente mesmo: “Tá, eu vou entrar nessa de novo porque eu quero”. É muito ruim ser vítima do destino.
Não ter paciência com gerações mais novas
Houve um período em que eu achava minha infância e minha adolescência terríveis. Eu olhava para pessoas mais velhas do que eu e acreditava que elas tinham vivido esta fase de forma melhor do que eu vivi a minha.
Hoje um simples passeio pela rua, num sábado à noite, vem me mostrar a nova geração, da qual eu não mais faço parte. Quando eu vejo os novos adolescentes, eu acho tudo tão esquisito! As roupas que eles vestem não me agradam. A forma como eles se comportam me incomoda. As conversas me entediam. As histórias que eles contam não têm graça.
Então eu experimento da auto-confiança dos mais velhos quanto ao passado. O segredo não é que minhas experiências foram melhores. Eu simplesmente fiz as pazes com o que eu vivi até agora. E aí, sim, a coisa tem um sabor que parece impossível não achar mais interessante. Não há outro lugar em que eu gostaria de estar senão na minha própria idade.
E às vezes eu mesma me pego praguejando como o meu pai, que olha os meninos e as meninas aglomerando os espaços e, balançando a cabeça, diz: “Que saudade de quando eu era pequeno!”.